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Posted on March 9, 2013
fuckface
Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.
“Mar sem fim”, de Amyr Klink

Amou daquela vez como se fosse a última…
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego…
Construção, Chico Buarque.
Para os cientistas, medo é uma defesa natural às situações de risco que impliquem em morte ou dor. Não sei até que ponto me orgulho da tatuagem que fiz aos 19 anos, deitada na cama de um tatuador mão-frouxa qualquer. “… o medo pode matar o seu coração”, caixa baixa, com fonte serifada, em itálico, na costela esquerda, logo abaixo do peito. A grande exclusividade do artista foi escrever cora Ç ã O… inclinando as três últimas letras. Hoje admito que é um horror, mas na época era genial — se não fosse a falta de jeito do tal cara, ainda seria genial.
Essa frase de “Água de beber”, composta por Tom e Vinícius nos anos 60, norteou uma pequena época da minha vida. Era para me dar coragem. Afinal, depois de uma adolescência tão conturbada e cheia de baixos, o que poderia me afligir? Um ex-namorado? Uma chefe escrota de estágio? Uma bosta de faculdade? E esse lema me forjou na versão mais corajosa que conheço. Quase confundi com “Carpe Diem” ou “Faça merda à vontade”. Eu podia enfrentar tudo e seguir forte ainda que houvesse um buraco ali ou aqui. “Não há nada a temer”. Mas não é bem assim. Com a ressaca moral de uma Mulher Maravilha que pensou poder tudo, me perguntar sobre os benefícios do medo veio bem a calhar.
— Desculpa, mesmo. Gostei mt de vc, mas estou com medo do que pode acontecer.
Claro, isso jamais sairia da minha boca, minha tão corajosa boca. Achei que a ideia “vamos deixar rolar e resolvemos depois” fosse a solução comum. Mas ele teve seu insight de racionalidade e nos impediu de fazer uma grande bosta chamada “ponte Rio x São Paulo”. Afinal, que coração ficaria sóbrio depois do “cheiro, o toque” e tudo mais? Ainda com o discernimento do lance-assim-sem-compromisso, quem não “pagaria uma paixão”? Vi que os anos e — uma droga de namoro à distância — realmente não havia servido para me deixar mais inteligente. De que adianta, então, tanta coragem? Também é preciso ter coragem para assumir a covardia. Não posso ter raiva dele por isso. Ele só abriu mão de um erro que era certo pra ambos.
E só agora, e finalmente agora, descobri que o mesmo Vinícius dono da máxima “Que seja eterno enquanto dure” deixou escondido (para os meus olhos corajosos) lá no finalzinho de “Água de beber” a grande verdade total de tudo:
“Eu sempre tive uma certeza
Que só me deu desilusão
É que o amor é uma tristeza
Muita mágoa demais para um coração”
